Tiago Craveiro: a história de um atleta que despertou a nossa curiosidade

Recebemos um email de um atleta chamado Tiago Craveiro, que despertou a nossa curiosidade. E do qual vamos partilhar convosco a sua apresentação:

A minha paixão pelo desporto vem dos tempos de infância, quando, apesar do frio cortante ou do calor tórrido da Serra, todo e qualquer tempo livre era passado a jogar à bola ou a pedalar.

Qualquer criança tem o seu passatempo favorito e o meu era essencialmente não estar em casa quieto. Ser surdo nunca me impediu de fazer o que os outros faziam. Aliás, sempre foi um fator motivador para alcançar qualquer coisa na minha vida, por isso nunca me senti desprezado por esta condição nem nunca quis que me tratassem com pena.

Qualquer miúdo gosta de aprender a andar de bicicleta e de ter uma. Eu não fui diferente. Aprendi a andar de bicicleta aos oito anos, numa bicicleta que tinha sido de uma prima e tinha de partilhar com um dos meus irmãos. Então, sempre que podia, lá estava eu a controlar o tempo para chegar a minha vez de pedalar. Não deixava passar um minuto a mais. Entre algumas birras lá conseguia pegar na bicicleta e aproveitar cada segundo, cada metro, cada novo truque em duas rodas.

Fui crescendo e aumentando o gosto pelo ciclismo, acompanhando pela televisão um dos meus ídolos, o Joaquim Gomes. Sonhava em silêncio com o pódio mas tinha consciência da distância que havia entre um rapaz surdo de Manteigas e um pódio.

Fui estudar para a Guarda para uma turma para deficientes auditivos. Aos fins de semana vinha para Manteigas ansioso para fazer o que gostava. Nessa altura ainda era difícil escolher entre o futebol e o ciclismo. O futebol era o desporto mais praticado pelos meus amigos e por isso ligava-nos. Ainda hoje, tenho um grupo que se junta para uma “futebolada”. O meu irmão (segundo mais velho) sempre gostou também tanto de futebol como de ciclismo e vendo em mim algum potencial com a bicicleta incutiu-me na prática de BTT. Desde então tornei-me inseparável dessa modalidade.

Em 2003, comecei a participar em provas de BTT em Manteigas, percursos de 12 quilómetros a subir. Participava em praticamente todas as provas, mas as vitórias eram apenas pessoais, gostava de viver aqueles momentos de pura adrenalina, de pedalar sempre mesmo quando sabia que não ganharia ou quando as pernas fraquejavam, mas na minha cabeça não faltavam ânimo e força. Chegava a casa molhado, sujo, ferido e cansado, mas a minha preocupação era ver se a bicicleta estava bem, se não havia nada estragado, se estava capaz para a próxima prova.

Concluí o 9.° ano na Guarda e, com orientação de lá, fui para Vila Nova de Gaia tirar o curso de eletricidade durante 18 meses. Vim estagiar para a empresa onde hoje trabalho, no Canhoso, Covilhã, faz já mais de dez anos.

A par com o meu trabalho iniciei uma nova fase na minha vida de desportista. Com o incentivo do meu irmão, mais uma vez, comecei a treinar com regularidade, diariamente, antes ou depois do trabalho. Aos fins de semana treinava em Manteigas. Os resultados não apareceram logo, mas com toda a dedicação fui melhorando muito a minha condição física. Fui também percebendo que era no BTT que podia obter melhores resultados, tinha ao nível de força muscular boa capacidade para subir.

Fui participando em diversas provas de BTT e algumas provas de ciclismo e, em 2012, integrei como federado uma equipa de ciclismo que pertencia a um clube de futebol da Baixa da Banheira: Banheirense Futebol Clube. Contudo, devido à distância geográfica e portanto à dificuldade de conciliar treinos com o meu trabalho, fui obrigado a deixar esse clube. Em 2014, a Associação Desportiva de Manteigas propôs a minha integração no grupo de ciclismo e pude também ficar filiado na Federação Portuguesa de Ciclismo, na categoria de paraciclismo D, ou seja, atleta portador de deficiência auditiva.

Desde então os meus treinos e avaliações físicas são orientados pelos meus treinadores João Rodrigues e David Rodrigues (D2J Human Performance). Treino seis vezes por semana e tenho um dia de importante descanso. Os treinos têm duração e intensidade consoante o objetivo desse mesmo treino.

Embora o meu percurso desportivo ainda seja curto, elejo como o melhor momento da minha carreira o  título de campeão nacional e vencedor da Taça de Portugal XCM em 2015. Em 2016, voltei a ser campeão nacional e o 2.° lugar da Taça de Portugal XCM.

O ano de 2016 foi bastante positivo, estou bastante satisfeito. Pela primeira vez, entrei no Campeonato Nacional  XCO e obtive o 3.° lugar. Na prova de Montanha Beira Interior, também estreante, consegui o último lugar do pódio. Pelo segundo ano consecutivo, fui aos Açores e tive a gratificante oportunidade de correr ao lado de grandes atletas mundiais.

Sinto um enorme privilégio por poder representar a minha terra e trazer para o meu clube boas classificações nesta modalidade.

O objetivo principal para a época de 2017 é manter o título de campeão nacional XCM na minha categoria D. Em relação às provas da Taça de Portugal XCM, pretendo alcançar os melhores resultados de modo a vencer o Troféu.

Um sonho que adorava realizar, como qualquer desportista é representar as cores de Portugal nos paralímpicos.

Para a próxima época vou contar com o apoio da Câmara Municipal  de Manteigas, Associação Desportiva de Manteigas, juntas de freguesia do nosso concelho, Art`bike, que é a minha loja oficial, marca de bicicletas Coluer, Agrosebastião/novo talho e Papelaria Manelito.

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